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Os filhos de Emilia Batalha

Emília nasceu com o mal no útero.
Mal se sagrou a parir aos sete, a espaços na história de um século que raiava a questões, concedia com dor ao mundo, rebentos á sorte que dariam no futuro flagelos e azar.
Ainda mal principiava a solavancos, mil e novecentos, aquele que não haveria de ser em nome e em gente, asfixiou umbilical num cordão matricida, a modos que António, o primeiro, o que não foi, deu graça de morto ao que haveria de ser, o primogénito vivo de Emília Batalha.
Erguia-se Novembro num Outono tardio, quando, assanhado, um volume de insecto torto e prematuro, se estranhou á prenhez e berrou o frio escorpião que haveria de infectar o signo e o nome desvalido de António nos ermos tristes da serra.
Seca como os áridos desguarnecidos do deserto, Emília num encontro moribundo com devaneios do parto a frio, previu martírios que a acordaram ao fim de três dias de delírio, na vaga ideia de uma cabra salvadora, arregimentada para ama no curral de Manuel Caio.
A acanhada puerícia de António, foi um gatinho deprimido pelos vãos esconsos da cerca armada na redondeza da casa, levantada á força de braços canhestros, por sujeitos que á jorna eram recrutados no pelourinho á conta de uns “reis”, um pão de quilo e uma garrafa de vinho.
António, meia-vida de gente, tétrico como o fruto de um casulo violado, passou ao lado das maleitas acreditadas pelo seu corpo informe, crescendo saudável, sem cuidados de maior.
O primogénito dos Batalha foi um acontecimento de segundos, sem riso ou emoção que erigisse o sorriso no frontispício militar de Baltazar Batalha, uma careta altiva que espigava um respeito de cadáver ao comum dos mortais, ao coveiro da vila, dir-se-ia até, aos próprios defuntos.
Emília fora prometida como saldo de uma divida a Baltazar, uma divida herdada entre socalcos de vinha de uma granja arrendada por um anónimo de pouca sorte e fraco engenho para as coisas da lavra e das finanças…
Assim como embolso de um terreno infértil, Emília entrou pelos fundos na vida de Baltazar, servindo-lhe apenas, de deposito de ejaculação e indiferença.
Na casa, embora consorciados por firmamento de contrato religioso, a provar dignas vontades e princípios morais de Baltazar ante a santa madre igreja, Emília, a Batalha, ocupava um quarto acurralado, com rotina de chocadeira e encubro de humilhações.
António, não o primeiro, mas o primogénito aquele cresceu bem e pouco e durou nada, foi aparição breve e esquecida quando, numa noite desabrida de Novembro, um dia antes de completar catorze anos, entrou para historia da estatística ao ser o “um” de “um milhão”, a ser destinado ao fritar de um relâmpago que o fez juntar ao irmão asfixiado no sitio que não se quer.Desfeita e refeita e feita de novo em graças, Emília, a seca, a Batalha, a penhora a saldo por calotes de terra, deixou escorregar do ventre como uma borra, aquele que se lhe destinou a mudar a vida e o quarto.
Vicente…Vicente Batalha, um cruzamento acurado numa tarde de embriago de Baltazar, que bruto no fazer, o havia de trair como a César cravando um aço frio pelas costas naquele que lhe incutiu o cromossoma do mal e da vingança.
Vicente trepou em silêncio pela idade, calando os desprezos e a humilhação serviçal da mãe, a qual queria como Édipo elevado á potência mitológica de a ter inteira, até ás vísceras, em fornicação, em procriação, em incesto exaltado e consentido.
Baltazar que não deu cara e corpo sequer ao coveiro que o temia, foi sepultado em sigilo universal no meio de um socalco em divida e Emília mudou de quarto, á espera do quarto…filho do seu filho.
A época do antigamente, tinha a eternidade tatuada em doze meses, que na memória futura passam céleres como letras, como embriões em gestação, nervosa, á espera do que sempre é duvida, do ser ou não ser…eis a questão, aflorada em termos de resumo cronológico para seguir a vida e o texto sem pormenores atrasadores.
Foi assim que á luz de um Março calmo, pelas horas da tarde amena, aquele que foi fruto pecaminoso de um amor feito á faca, foi tirado a ferros e a fistulas do útero aceso e infectado de Emília, a seca, a Batalha, a penhora a saldo por calotes de terra, a incestuosa Emília, que dava agora á luz umas costas Vicentinas, sendo avó do seu filho, que era irmão do seu pai e neto de um anavalhado.
Vicente que desertou á sortes, que desertou escondido, escolheu nome de judeu para o filho-irmão, nome de rei, de redentor, o messias…Jesus Batalha!
Jesus, de seca que era a mãe por pecados hormonais, chuchou da mesma pipeta cabril do curral de Manuel Caio, de uma geração de cabras todas irmãs da primeira que tinha servido António “relâmpago” na sua ténue existência…o incesto porventura era ventura dos caprinos nos currais de um século, que raiava a questões.
Jesus tirou o pecado do mundo.
Durante cinco anos, no alteio da serra, nasceu o que parece amor, não fosse por ser crime de semblante edipiano que nasceu a fio de lâmina como os ferros frios que o sacaram em abcesso, dor, e em secura.
Descalcificado pela hormona que pecava á cabra já tão seca quanto Emília, Jesus, prosperou em raquitismo e desfaleceu num entorto triste, até aquela quinta-feira em que nascia o quinto filho de Emília, na quinta que era uma divida, á quinta hora da tarde, quando Vicente enlouquecido enterrou o judeu com os braços em cruz na quinta do pai defunto, atraiçoado pela ira do pai de Jesus.
Eis outra vez a questão, aflorada em termos de resumo cronológico para seguir a vida e o texto sem pormenores atrasadores.
O quinto nasceu José, enterrado á mesma hora pelo ódio do momento em sacrifício de Jesus por cromossoma hereditário, por maldade, por vingança, por, ao ventre amaldiçoado de Emília, a seca, a Batalha, a penhora a saldo por calotes de terra, a incestuosa, que viu num safanão o que havia de ser José, ser acabado por Vicente numa raiva ancestral.
Mil novecentos andava e corria para a guerra que teve como soldado, oferecido como cordeiro, o sexto filho da serra onde as cabras amamentavam…
Por lá ficou sem história e sem nome…é o soldado desconhecido de todas as serras esquecidas, de um século que se ergueu em catarse, em sangue…e em névoa.
Emília tinha agora 49 anos... e Vicente, seis irmãos mortos com o sétimo que engendrara para nascer Dezembro…
O frio chegou.
Pelos socalcos da serra cobriu-se, a vinha de branco em geadas infernais.
Vicente, era uma sombra carcomida, pelo silêncio do amor que o errava em medronho.
Dormia pelo palheiro e ouviu o urro forte que rasgava o útero farto de sua mãe, no parir do seu irmão, o sétimo, o que nascia em nome gélido, sussurrado, por Emília no seu leito de morte, no seu suspiro por fim…
-Vais-te chamar Florêncio…e morreu.
A criança foi levada por uma parteira amigada que adoptou o filho último, órfão de dois…
Vicente, a madrugada cuspia frio, inebriado, pelo medronho, enfumado de barbas de milho e delirante como Morfeu, fez faísca do palheiro e a serra ardeu toda… com ela…os Batalha!
Florêncio…foi presidente de junta numa terra da província, onde as cabras amamentavam os desvalidos da sorte com dividas aos latifundiários…
Morreu em 73…numa quinta-feira triste…descalcificado dos ossos, sem nunca conhecer os pais.

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terça-feira, janeiro 12, 2010 - 21:38

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