Deixa-me adormecer primeiro

Eu e o homem
Orgânico e inexacto numa orgia de sentires
Uma escultura nua num crepúsculo feito noite
Agreste, a terra, brotava edifícios em mim e vestia as madrugadas de descobrires internos
Com uma hipocrisia geométrica o sangue riscava fronteiras enquanto eu me debatia em delírio
Força, aço e betão eram agora o rumor atómico de um holocausto alegórico
A alvorada proclamava já rubro o dia
Enquanto eu atropelava táxis embriagados á porta de uma viela
Ergo a cabeça num desafio febril numa ânsia de enforcar o mundo
Pago uns cêntimos de alma a um taberneiro aposentado com olhares fartos e pontiagudos
Intrépido o meu verbo vale uma luta que ganho caído…humilhado
Sou agora a miséria sentado na calçada
Tenho frio e sinto saudades
Onde estás?
Sou uma criança sem dono perdida e glaciar
Adivinho-te em cuidados a chorar atrás da porta
Se pudesses passar por aqui mendigava-te um carinho
Prometo, prometo, desta vez quando saíres estarei cá quando chegares…

Fim do Primeiro Acto

Eu e o homem
Orgânico, fabril
Cheguei mais cedo a casa e apressei-me no jantar
Sei que vens cansada e roubei-te a colher pau
Oiço-te subir as escadas e vou esperar-te ao corredor
O barulho dos sacos cansados invade a casa de aconchegos
Jantamos a quebrar silêncios
O amor em nós é óbvio
Deitamo-nos numa cama breve numa orgia de sentires
A alvorada agora é uma madrugada serena no teu ventre adormecida
Acordo, ergo a cabeça num desafio intenso á vida
Desta vez quando saíres estarei cá quando chegares…

Epílogo

Eu e o homem
Orgânico mais exacto
Nos teus cabelos brancos
Adivinho um novo adeus
Passámos por tanto aqui
Foste as jóias que não te dei preciosa mulher gigante
Já não me perco na noite escura mas tenho em mim o teu afago
Observo teus gestos lisos és-me tudo e o agora
O amor é uma família inteira feita apenas com nós dois
Tricotamos sentimentos á hora da novela
Os vidros embaciados para nós são sempre Outono
Não adormeças no sofá
Deixa-me adormecer primeiro
Já não me sento na calçada
Nem te posso prometer
Que desta vez quando saíres estarei cá quando chegares…
Eu…inorgânico, exacto, sem homem
Uma escultura nua num crepúsculo feito noite
Numa orgia de saudades habitarei para sempre em ti.
O nosso amor é tão óbvio,
Que aumento o volume do televisor
Com medo que adormeças
Sem terminar a novela.

Sabes meu amor se dormires...
Sou uma criança sem dono, perdida e glaciar
Sem alvorada nem cuidados
A chorar atrás da porta

Submited by

Martes, Enero 19, 2010 - 02:07

Poesia :

Sin votos aún

Lapis-Lazuli

Imagen de Lapis-Lazuli
Desconectado
Título: Membro
Last seen: Hace 11 años 51 semanas
Integró: 01/12/2010
Posts:
Points: 1178

Comentarios

Imagen de MarneDulinski

Re: Deixa-me adormecer primeiro

LINDO E TRISTE POEMA!
Meus parabéns,
Marne

Imagen de ricardopacheco

Re: Deixa-me adormecer primeiro

lindo poema, parabéns.

Imagen de Gisa

Re: Deixa-me adormecer primeiro

Sou agora a miséria sentado na calçada
Tenho frio e sinto saudades
Onde estás?
Sou uma criança sem dono perdida e glaciar

Uma carência extrema, que chega a doer! Lindo!
abraços da amiga que vc se decepcionou.

Add comment

Inicie sesión para enviar comentarios

other contents of Lapis-Lazuli

Tema Título Respuestas Lecturas Último envíoordenar por icono Idioma
Fotos/Perfil 3517 1 5.598 03/13/2018 - 21:32 Portuguese
Poesia/Aforismo In Vapore Sano 4 4.034 03/13/2018 - 21:32 Inglés
Poesia/Aforismo Era só isto que eu queria dizer 1 3.839 02/27/2018 - 10:22 Inglés
Poesia/Aforismo salgo :33 Isaías sonha que aos fala aos camones 0 3.542 06/20/2014 - 15:41 Inglés
Poesia/General Boca Do Inferno 0 6.821 07/04/2013 - 22:44 Portuguese
Poesia/Pensamientos veludo 3 3.779 05/15/2013 - 17:34 Portuguese
Poesia/Aforismo Segundo Reza a Morte 0 3.763 10/04/2011 - 17:19 Portuguese
Poesia/Meditación Fumo 0 3.838 09/23/2011 - 12:00 Portuguese
Poesia/Aforismo De olhos fechados 3 4.330 09/20/2011 - 22:11 Portuguese
Poesia/Aforismo Tundra 0 3.391 09/20/2011 - 16:36 Portuguese
Poesia/Meditación Vazio 3 3.857 09/16/2011 - 11:00 Portuguese
Poesia/Aforismo Intento 0 3.221 09/05/2011 - 16:52 Portuguese
Poesia/Aforismo Palma Porque sim...Minha Senhora da Solidão 0 3.325 08/29/2011 - 11:13 Portuguese
Poesia/Aforismo Editorial 0 3.594 08/29/2011 - 11:08 Portuguese
Poesia/Pensamientos Ermo Corpo Desabitado 0 3.631 08/29/2011 - 11:04 Portuguese
Poesia/Aforismo Dos passos que fazem eco 1 3.286 06/21/2011 - 22:06 Portuguese
Poesia/Meditación Autoretrato sem dó menor 3 5.055 03/28/2011 - 23:34 Portuguese
Poesia/Aforismo Todo o mundo que tenho 2 4.146 03/09/2011 - 08:23 Portuguese
Fotos/Perfil 3516 0 5.641 11/24/2010 - 00:55 Portuguese
Fotos/Perfil 3518 0 5.532 11/24/2010 - 00:55 Portuguese
Fotos/Perfil 2672 0 6.864 11/24/2010 - 00:51 Portuguese
Prosas/Otros A ultima vez no mundo 0 3.901 11/18/2010 - 23:56 Portuguese
Prosas/Otros Os filhos de Emilia Batalha 0 3.894 11/18/2010 - 23:56 Portuguese
Poesia/Desilusión Veredictos 0 3.844 11/18/2010 - 16:41 Portuguese
Poesia/Intervención Nada mais fácil que isto 0 3.373 11/18/2010 - 16:41 Portuguese