As arvores não morrem de pé

Abafado sopro embrulhado em tépidos tumultos de verde cariam defronte á igreja as pedras centenárias.
Verso adiante, nos degraus da escadaria acartada a fé de lajes de um tempo rude e laboral, num murado de caliça orvalhado, cita a data esculpida a cinzel, num quadro granítico posto a jeito simétrico, a perdurar memórias inscritas de um tempo sem cena no palco do presente.
Rodeado de plátanos em sentinela milenar, o adro é um supero de penumbras delicadas onde sombreiam gentis, galhos altaneiros afagados pela brisa que entardece ao ritmo monocórdico dum relógio de sol taciturno, que vai marcando horas, com superintendência dos dias generais.
Sento-me no muro, olho a velha árvore ferida de todos os invernos que me antecederam no mundo.
Passo a mão pelo tronco num suspiro quase cerimonial a esta companheira enorme, que se funde doce pelas brumas do passado a lembrar risos libertos da canalha em futebóis, a brincar de espadachim com os galhos desta agora que está prestes a morrer.
Foi esta noite passada, sem resisto á intempérie, cansada e com mil anos num brusco troar de fim, que o silêncio da raiz se fez grito animal num estrondo vegetal a esvoaçar a fronde pelo adro da igreja.
Eram coisa das nove e tal, hoje quando sai á rua e dei com ela moribunda no aguardo da extrema-unção…
Mas nem o padre da paróquia ou as beatas caridosas ou mesmo os putos de outrora compareceram ao velório…
Estava ali, deitada sozinha ao abandono de um carinho que lhe desse paz ao repouso.
Lá estou eu sentado…junto ao muro onde caiu, junto ao muro onde viveu, a passar-lhe a mão no tronco talhado de inscrições que me são familiares, como a lembrança da minha irmã, eternizada a canivete por uma paixoneta assolapada do “pobre” do Zé, que lhe arrastava a asa e sempre a levar com negas…eram amigos, ficaram amigos, casaram, tiveram filhos, ela morreu, ele mudou de terra, mas ficou ali marcado o ano em que a amou…
ZÈ + MARILIA, em maiúsculas, com a data…27-06-83!!!
Ao lado, ligeiramente acima quase um livro de visitas que lhe foram ferindo a casca mesmo que á superfície…ele era então, NUNOKAS LOVE MARTA… 03-10-85, CARALHO…só e sem data…VICTOR PARAQUEDISTA…06-08-81…the doors, com uma inscrição diminuta quase imperceptível a olho nu com as iniciais “PR”…U2 /CALÓBOY…14-09-89…PEDRO AMA JU…27-07-90…FCP=MERDA M.BIRUTA SLB 10-01-94…etc…
Agora aqui deitada, a fazer sombra no adro inteiro, passo-lhe a mão no tronco, velha companheira, poste de baliza, esconderijo indetectável onde o ultimo salvava todos, escudeiro de batalhas que distribuiu galhos e bolas, para guerras a brincar que acabavam á pedrada. Sombra amante nos verões quentes a desabafar encantos etéreos de brisas leves e estivais. Coito de chuvas inesperadas que deu a copa ás tempestades, vegetativa, sem fugir da sua eterna sentinela…esticou-se hoje, num suspiro de cansaço ancestral, num estrondo vegetal a esvoaçar a fronde pelo adro da igreja.
Se tivesse caído a igreja, ou o quadro de granito, o relógio monocórdico, ou um santo do altar, talvez sai-se á rua lá pelas nove e tal e no encosto do seu tronco entristecesse ao caos em volta…Mas caiu a companheira, com os meus passados escritos com datas e com amor dos tempos que me fizeram homem…
Peguei no canivete, chorei porque senti... a única tatuagem que lhe fiz em mais de trinta anos…
ADEUS 23-12-2009
As arvores não morrem de pé!

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Jueves, Abril 1, 2010 - 23:01

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Lapis-Lazuli

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Bom poema!!!

:-)

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