O estocástico
O abajur é a única luz do escritor,
O único álibi da sua existência.
O olhar atravessa o vidro da janela,
Os prédios cercam o desejo de liberdade
Pessoas vivem em caixinhas de surpresas.
O fragor dos trovões blasfema mais uma vez
Numa voz engasgada.
O céu pisca deixando à mostra os seus cabelos cinza
De nuvens umbrosas.
O ser humano é triste e solitário
Na minha perspectiva aqui de cima,
Num desequilíbrio do meu estado compenetrado
Das vidas em movimento vistas daqui de dentro.
Sou uma migalha tentando não desaparecer.
Os edifícios são rostos malévolos.
Onde deixei a bagagem dos meus sentimentos?
Onde esqueci minha esposa?
Será que a perdi em alguma gaveta?
Onde estão meus irmãos, minhas irmãs, meus pais...?
Tento lembrar das palavras, das conversas,
Mas de nada vale.
Ainda corro sem olhar para trás,
Escalo a maré na mutante enfermidade da “memória”.
Acho que não estou perdido
Acho que meu coração é quem se esqueceu de mim.
Às vezes aprendemos a falar
E, de repente a fala se esquece que foi aprendida.
Minhas mãos rabiscam entropias de textos estocásticos.
Os tijolos dos meus “ontem” são entulhos.
Esvai, esvai, esvai até o dia chorar,
Não posso tentar ser eu,
Porque o “eu” não passa da individualidade do ser humano.
Não sou humano,
Nem sei o que significa ser humano.
Se sou técnico,
Sou mecânico
Sou eletricidade,
Hidráulica
Pneumática.
Troco o amor pelo calor da máquina
Troco a carne pelo aço, êmbolos, hastes, gaxetas...
Meu pulmão é ar comprimido
Meu sangue é óleo
Meu cérebro é um logic program.
Penso metrologicamente.
Choro a pressão adiabática.
Minha vida é a vida útil.
Se “paro” para morrer preventivamente
É porque minha vida foi fria
E deixei-me levar pelas coisas sendo as coisas,
Sendo que as coisas eram para serem apenas “coisas”.
Eu tinha que ser o sentido do sentimento contido dentro da carne,
Só que me fizeram de lata e não de carne.
Na natureza confusa desta época
Suplico que me deixem em paz,
Pois estou orgulhoso por ser nada...
Apenas nada.
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Ministério da Poesia :
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