Belas...uma terra perdida em mim
Estou sentado...
Belas são abandonos sombrios e amores perdidos no passado.
Estive tão longe e tão perto de ser o que nunca fui, entre bicas frenéticas nos Fofos e alucinadas viagens ao café do "gordo".
De Belas, sempre sonhei os amanheceres...Calmos e grandiosos como a "Pedra Alta".
Belas são as memórias de "exilados" e defuntos, que todos nós olhámos um dia...
São os putos a jogar á bola num campo de futebol eterno...nos "bombeiros" no Monte Arroio, no Adro da Igreja...onde quer que fosse.
Um exército de capitães sem pátria no "ferro velho" do Acácio, a adivinhar a "samaritana", esse ninho impessoal de prédios mortos e viperinos que envenenaram a Belas de outrora.
Quem não se lembra do "Colhão" pendurado no autocarro, como um macaco livre a desdenhar os vossos desprezos...
O "Russo" já morreu, e só lhe sentem a falta os vazios que deixou nos despojos de uma vida errante.
Do que sinto falta aqui?
De ser criança outra vez.
Do parque com a dona Sara, do saudoso professor Hermínio, e dos matrecos no Café Grande...
Era livre.
Tantas horas de ócio e prazeres proibidos sentado nos bancos do Jardim, quando Belas era um Verão que nunca mais tinha fim... •Belas mudou...a nossa vida também.
Nunca mais vou á Quinta do Wimmer onde aprendi a nadar.
Já não oiço 40 alunos como pássaros estonteados a gritar na sala grande da Nº1 de Belas na fronteira de uma reguada.
As festas do Jardim, deixaram de ter o "Alentejano Bravo" nas suas poses de tinto com as cuecas na cabeça a animar as madrugadas...
Já não há bailes nos bombeiros e agora o Café do Gordo é uma casa de antiguidades tão velhas como Belas.
Estive muito tempo afastado...
Creio que de mim, saudades ou memórias são coisas que ninguém quer.
Não fui o melhor dos filhos mas amo Belas como uma Mãe...que já não tenho.
Passei por aqui ao acaso...
Vi gente que já não via desde que Belas foi Belas.
Gente dos Bombeiros, da Humberto Delgado, da Idanha, do Monte Arroio, das "Vivendas" e das "barracas.
Vi gente que apanhava o autocarro na paragem do Jardim que ficava ao pé dos Táxis.
Hoje fui beber um café, aonde ficava o supermercado do "Videira" ao lado das bombas da gasolina...que já não existem.
Saí, e dei por mim a passar ao pé da padaria, que já fechou ao pé dos Fofos...
O Clube desportivo parece um túmulo amarelo de bandeira a meia-haste numa pose de primeiro andar esquecido.
Estive afastado...muito tempo!!!
Madrid, Barcelona, Marselha, Amesterdão, Londres, Zagreb...tanto tempo...
Hoje dei por mim em Belas, em frente ao lago do Jardim a constatar que a minha terra é uma menina triste e abandonada, escurecida pelo tempo.
Mas para onde quer a vida me leve...levarei Belas comigo, como a estátua do "Beijo" que está no parque infantil...e vos dou a todos vós...gente da minha terra...terra da minha gente!
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